Esse Ipod de terceira geração, com conexão firewire e 15GB, comprado em 2003 em SP, me acompanha desde então. Um dia, fazendo backup e sincronização, houve uma pane elétrica que danificou o HD externo e o cabo firewire, que parou de conectar com o iTunes (hoje ele apenas carrega a bateria). Comecei a usar então o iPod com um cabo USB que conectava o dispositivo ao iTunes mas drenava a carga da bateria muito rapidamente. Tinha (tenho ainda) que fazer tudo muito rapidamente, colocando poucas músicas a cada vez. Depois o cabo USB parou de sincronizar também. Da última vez que ele sincronizou, mudei a library e esvaziei o iPod. Depois não consegui mais conectar. Passou um ano parado e já tinha pensando em guarda-lo como relíquia. Mas não gosto de descartar objetos e, há dois dias, resolvi na força bruta (por acaso vi que forçando a conexão do cabo USB com o iPod o dispositivo conectava ao iTune). Quando estive no Canadá em 2007-2008, troquei a bateria e agora ele está funcionando maravilhosamente bem. Para sincronizar tenho que forçar a conexão, mas tudo bem. Passei dois dias colocando a minha biblioteca de sons em 15 GB, ouvindo músicas, selecionando álbuns, viajando na memória convocada por essa enciclopédia sonora que traz tempos, pessoas e lugares. Agora, nesse momento, ele está como mais de 2,5 mil músicas e 183 álbuns, quase 7 dias de música tocando ininterruptamente, em todos os gêneros (os que gosto, claro). Hoje ele é a minha fonte de escuta em casa. Um instrumento revolucionário, que reinventou a escuta musical em mobilidade e digital, que já passou por épocas, apartamentos e países. Agora, depois de 9 anos, ele está em plena forma, inundando a minha casa, meu carro, minhas flâneries e onde mais eu estiver com muito boa música.
Um revolver medieval, comprado em uma das sete maravilhas do mundo, o Mont Saint-Michel, na França, em meados dos anos 1990, mas não lembro exatamente qual foi o ano. O lugar é um burgo medieval, muito turístico, mas de uma beleza indescritível. O revolver foi comprado em uma das primeiras lojas do Monte, sem um objetivo muito preciso; apenas gostei, tinha um bom preço e faria um “souvenir” do lugar. Não tenho nenhum fetiche por armas, não sou um colecionador, mas gosto dessa réplica. Cabe na minha mão, mas não dispara mais. O gatilho está quebrado. Ele me acompanha desde então, mas estava perdido em uma estante. Vi agora e resolvi coloca-lo aqui nessa memória das coisas. É interessante como os objetos evocam sempre memórias de lugares. Nesse caso, lembro da subida no monte, da loja, do vento forte que estava soprando no dia, dos amigos queridos que estavam conosco naquele momento. Memórias disparadas pelas balas imaginárias dessa réplica barata.
Esse pássaro japonês, de ferro, já bastante enferrujado, foi comprado em 1994, se me lembro bem, em uma loja de antiguidades em Paris, perto da Bastille. Lembro que a loja tinha produtos orientais e africanos. Na época, esse objeto era um dos poucos que tínhamos em casa como uma decoração mais exótica. Ave migratória, ele já passou por muitas moradas (supostamente saindo do Japão, sendo depois vendido em Paris, morando agora no Brasil - seria interessante se os objetos tivessem marcas dos seus percursos, podendo contar mais um pouco de suas histórias) e hoje fica aqui no meu escritório, me olhando com seu bico pontudo e suas pequenas asas. Não sei que pássaro é esse e talvez isso não seja mesmo importante. Achei algo parecido aqui, mas não tenho certeza de se tratar do mesmo pássaro. Há muito tempo ele está aqui estacionado, não voa mais, mas sua carcaça enferrujada me transportou por alguns minutos para um outro lugar e um outro tempo.
Sobre o Trompete, minha irmã Adriana me escreveu em um email:
“ O trompete é muito mais velho que 1950….Aninha encontrou uns manuscritos do meu pai em um livro e me mostrou, era como se ele quisesse fazer uma autobiografia, separando em etapas acontecimentos da sua vida. Quando o pai dele morreu, ele foi pra Jequié, e aí ele conta que foi embora com o trompete e uma casal de canário belga, tudo que ele tinha! Se for o mesmo instrumento, ele tinha 19 anos….”.
Meu pai nasceu em 1928 e morreu em 2011.
Esses disquinhos de 33 rpm marcaram a minha infância no Rio de Janeiro. Lembro de passar tarde e mais tardes com as minhas irmãs ouvindo as histórias de Walt Disney. Outro dia coloquei no meu toca vinil e funcionou perfeitamente. Alguns estão bem arranhados e com buracos, mas nada que um leve toque na agulha da pick up não faça voltar aos trilhos. Impossível fazer isso quando um CD fica pulando ou derrapando. Não há possibilidade de dar uns tapinhas no digital, infelizmente. Esses discos me trazem de volta não só as histórias, mas também memórias corporais, como o espaço de escuta em nossos apartamentos do Rio de Janeiro. Me lembrei de sentados, ouvirmos as histórias na sala, no quarto… As vozes dos narradores, os efeitos especiais, as músicas ficaram mesmo impregnadas em mim e em minhas irmãs. Ouvimos alguns desses discos recentemente e podíamos ainda advinhar o que vinha na sequência das histórias. Esses objetos, hoje extintos, guardam momentos que não são apenas sonoros, mas espaciais e mesmo olfativos. Senti o cheiro do apartamento da Correia Dutra e depois o da Silveira Martins, ambos no Rio. Tenho poucas lembranças deles em Salvador, mas acho que usamos eles aqui também. Tê-los mais uma vez nas mãos, me trouxe uma torrente de lembranças que sem eles, talvez, ficassem dormentes para sempre. E me fez pensar que os sons em um iPod (sem a materialidade dos disquinhos) poderiam também despertar as mesmas lembranças, mas a força e delícia de poder passar os dedos pelos sulcos e pelos defeitos trazidos pelo tempo são inegáveis e, talvez, imprescindíveis. Ouço regularmente meus discos de vinil.
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Esse walkman Panasonic foi, talvez, se a memória não me trai, o primeiro que comprei, pedido de encomenda a uma amiga (Lucy) que estava em Manhattan, no final da década de 1980, provavelmente em 1987. Tive antes um aparelho portátil k7 que meu pai trouxe da zona franca de Manaus, mas não era um “walkman”. Hoje esse aparelho está completamente superado pela digitalização da música e, recentemente, a Sony parou definitivamente a sua produção. Tenho muitas lembranças desse walkman. Viagens com amigos, solitárias em ônibus, momentos de espera no dia a dia. Sempre gostei de andar e correr ouvindo música. Ele me acompanhava em todos os momentos. Era também um “recorder”, o que me permitia gravar palestras, entrevistas etc. Usei esse dispositivo em Salvador e em diversas viagens pelo Brasil. Foi abandonado pouco antes de eu ir para Paris, em 1991, substituído por um Sony Discman (esse eu não sei onde está!). Lembro de passar o meu tempo livre gravando, de discos de vinil, as melhor músicas para fazer “aquelas” fitas para viagens. E para momentos os mais diversos (dançantes, contemplativos, clássicos etc). Tempo revoluto e dispositivo extinto. Quando foi que você viu, pela última vez, alguém ouvindo um walkman de fita K7? Bom encontrar a memória de vivências e experiências através desse dispositivo largado em um baú, mas não tenho nostalgia da escuta analógica. O Panasonic ainda funciona!
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Mais um objeto do meu pai que está provisoriamente comigo. Esse trompete (Weril) faz parte de uma memória da ausência, já que muito falado, mas pouco tocado. Ele sempre esteve presente durante toda a minha vida. Não sei quando meu pai adquiriu o instrumento, mas arrisco dizer que deve ter sido por volta dos anos de 1950. Lembro do meu pai tocando esse instrumento uma ou duas vezes e, mesmo assim, poucas notas. Mas ele falava sempre dele, de quando era músico, de quanto queria, um dia, comprar um outro e voltar a tocar. Mas, de músico, ele virou ouvinte. Vivia lendo e ouvindo música com seus fones de ouvidos. Adorava trompetes e saxofones. A minha lembrança é assim de um tempo que não vivi (quando ele tocava), de um instrumento sempre presente, sempre ali, próximo, mas, ao mesmo tempo, inacessível. Lembro de ter tentado algumas vezes, sem sucesso, tirar algum som dele. Um instrumento fantasma, muito importante mas pouco presente, sempre guardado, misteriosamente. Cheio de mistério, silencioso, esse trompete nunca revelou os seus segredo.
Binóculo Asahi Pentax (8x30 Field 7,5) que pertencia ao meu pai. Instrumento de visão, mas também do tempo. Lembro de usá-lo, encantado com o seu poder de trazer as coisas para perto, em uma definição impressionante. Olhava sempre o mar e via ao longe barcos, casas e a igreja do Senhor do Bonfim, direto da varanda do nosso antigo apartamento na Vitória. Lembro também de olhar o céu, ver eclipses com filme de máquina fotográfica na lente para não “queimar” a retina, de olhar as estrelas…Pensava em como elas estavam brilhando ao longe e que, assim, estávamos vendo algo que já não existia mais. Também me vem à memória muitas brincadeiras de olhar vizinhos com as minhas irmãs (ou sozinho) nos outros prédios, de monitorar a vida alheia sem grandes consequências. Mais um objeto de visão e de espacialização em perfeito estado do meu pai, comprado na década de 1970 e viajando Rio, São Paulo, Bahia. Guardado em uma gaveta, sem uso, o reabilitei pouco antes do meu pai morrer. Agora, olho pra ele e vejo um filme, ao longe, desfilar.
Lapiseira Spalding & Bros, comprada na Ilê de Saint-Louis, em Paris, em 1994, já sem a parte superior, perdida em algum lugar. 0.5. Ela me acompanha desde então. Funciona ainda perfeitamente e é o par perfeito dos meus bloquinhos de papel onde gosto de rabiscar notas ou idéias. Tenho algumas memórias parisiense da lapiseira, corrigindo a minha Tese ou escrevendo em cafés, antes de ter um laptop. Depois, memórias soteropolitanas, no final dos anos 1990, corrigindo os originais do que viria a ser o meu livro Cibercultura, ou anotando endereços, telefones e idéias em Moleskines no Canadá, em Edmonton e em Montréal. Em Montreal, lembro de escrever com ela enquanto andava. Adorava fazer isso, em um exercíco de equilibrista. Conto essa história no meu e-book “Caderno de Viagens”.
Memórias de tempos e lugares diferenciados e distantes, interligados por um objeto banal.
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Relógio comprado em Praga, em 1992, deixado esquecido em uma gaveta por quase 20 anos! Encontrado recentemente, esse relógio de corda, voltou à vida trazendo memórias de uma primeira viagem quando eu morava na Europa. Praha! Recém saída do comunismo. Uma cidade inesquecível, certamente uma das mais belas do mundo. E lá, justamente, um dos pontos de encontro e de visita é o Orloj, um autômato-relógio astronômico medieval. Lembro de ter visto o autômato em movimento e de, na época, ter pensado no Golem, mito de origem nessa cidade, ser artificial, como o relógio, só que animado pelas palavras mágicas do Rabino, e não pela regularidade de polias e engrenagens!
Hoje esse relógio volta a fazer os seus tic-tacs em um outro espaço-tempo, preso ao meu pulso.
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